“Um dos maiores riscos que os idosos correm é o excesso de medicação”

Médico reformado, José Gomes Ermida, 73 anos, tem dedicado grande parte da sua vida ao estudo do envelhecimento. Alerta para o facto de “entre 20 a 30%” dos internamentos de idosos acontecer por “complicações derivadas dos medicamentos” e diz que “o que mais degrada uma pessoa é a inactividade física e mental”. Critica ainda o “desperdício” que existe na saúde e assegura que a falta de médicos em Portugal “é um falso problema”.

Dentro de 30 ou 40 anos Portugal terá três milhões de idosos, o dobro do número actual, estimando-se que, nessa ocasião, um em cada três portugueses tenha 65 anos ou mais. A sociedade está preparada para este envelhecimento da população?
Não está preparada nem consciencializada para o problema. Portugal tem hoje aproximadamente 1.8 milhões de idosos. Daqui a 30/40 anos, a situação vai agravar-se. Os idosos que se cuidem. Não vai haver muito mais para os idosos do que aquilo que existe actualmente. Portugal vai sofrer uma redução da população, estimando-se que, dentro de 30 ou 40 anos, o País tenha cerca de nove milhões de habitantes. Desses, mais de três milhões serão idosos, o que representará um peso extraordinário em termos sociais e económicos, sobretudo se uma percentagem grande desses idosos for dependente. Uma das saídas para o problema será a redução dos benefícios sociais. Estou convicto que, em 2040, as reformas não irão além dos 60% dos rendimentos. Um dos maiores desafios do século XXI será resolver o problema do envelhecimento.

O alargamento da idade da reforma é inevitável?
É um problema complexo. Em termos biológicos não há qualquer problema em trabalhar mais tempo. Isso até é saudável. Mas, se alargarmos a idade da reforma, que lugar terão os novos no mercado de trabalho e como serão suportados os custos sociais dessas aposentações? Em muitos países não há idade da reforma. As pessoas reformam-se quando entendem que o devem fazer.

Parece-lhe um bom sistema?
É, mas também tem problemas. A pessoa não pode, aos 70 anos, continuar a fazer, com a mesma competência, aquilo que fazia aos 40 ou 50 anos. Terá de mudar de actividade e a intensidade de trabalho. Em 1982, Portugal tinha 11% de idosos e 22% de crianças. Neste momento, estamos com 18% de idosos e 14% de crianças. Em 2050, teremos 35% de velhos e entre 10 a 12% de crianças. Pode acontecer que, existindo cada vez menos pessoas em idade activa, haja menos necessidade de emprego e os idosos tenham de trabalhar até mais tarde. Talvez haja uma solução natural para o problema.

Diz que, face ao cenário actual, “os idosos que se cuidem”. De que forma?
O turismo para seniores está hoje muito em voga. Metem-se os idosos em autocarros, onde só vão velhos. Esquecemo-nos que um dos pilares do envelhecimento saudável é a integração. Quando fazemos isso, estamos a afastar os idosos dessa participação. Por outro lado, quando se fala do problema dos idosos as pessoas pensam logo nos lares. A preocupação das famílias é “arrumar” os seus velhos. Mas o lar deve ser a última solução.

Porquê?
Devíamos manter o idoso no seu domicílio o máximo de tempo possível. O idoso só devia ir para um lar quando se provasse, através de uma avaliação multidisciplinar, que ele precisava mesmo dessa solução.

E se não fosse possível manter o idoso no domicílio?
A solução deveria passar pelas residências assistidas, onde o idoso tivesse assistência, ao nível médico, de enfermagem e de higiene, mas onde pudesse continuar a fazer a sua vida normal e a manter as suas rotinas. O ideal seria o hotel residencial. Temos dois ou três em Portugal, mas inacessíveis à maioria das pessoas. E nem sempre luxo quer dizer qualidade.

A generalidade dos lares tem um tratamento pré-formatado dos utentes, com o levantar e o deitar à mesma hora, não tendo em consideração os hábitos de cada um. Que consequências tem esse tipo de acompanhamento para o idoso?
As consequências são graves. Ao nível biológico, quanto menos fazemos, mais nos atrofiamos. Se a pessoa deixar de exercitar uma determinada função, perde-a rapidamente. Quando arrumamos pessoas em lares, com horários para levantar, comer, ver televisão e dormir, estamos a atrofiá-las rapidamente.

Esse modelo de lar pode favorecer o aparecimento de quadros depressivos nos idosos?
Há um certo abuso quando se fala de depressão nos idosos, com uma forte tendência para rotularmos os velhos de deprimidos. Há muitas pessoas para quem a reforma é um traumatismo enorme. Quando a pessoa já não pode fazer aquilo que desejava, não se ocupa e começa a perder capacidades, tende a deprimir. Mas muitas vezes confunde-se tristeza com depressão. Normalmente nos idosos a depressão é mais leve e, muitas vezes, não se resolve com medicamentos, mas com actividade. Os médicos optam, em muitas circunstâncias, pela solução mais fácil, recorrendo a tranquilizantes, anti-depressivos ou hipnóticos.

Há um excesso de medicação dos idosos?
Um dos maiores riscos que os idosos correm é o excesso de medicação. Entre 20 a 30% dos internamentos de idosos acontece por complicações derivadas dos medicamentos. Quanto mais drogas tomar, mais ‘chumbado’ fica o idoso. Os nossos idosos têm falta de ocupação e ganham facilmente o hábito de que lhes façam as coisas.

Seria benéfico colocar os idosos que ainda estão capazes a desempenhar pequenas tarefas nos lares?
Isso seria muito positivo, mas é preciso lutar contra as famílias, porque a generalidade não entende que manter os idosos ocupados tem muitas vantagens. O que mais degrada uma pessoa é a inactividade física e mental. Os idosos devem fazer aquilo que podem. Caso contrário, entram num processo de degradação sem retorno.

Promiscuidade entre público e privado “é hoje maior do que nunca”


O corte nas horas extraordinárias dos médicos, recentemente anunciado pelo Ministério da Saúde, pode afectar a qualidade do serviço?
Tudo o que seja mais de 50 horas de trabalho por semana implica seriamente com a saúde da pessoa. Um dos problemas da saúde é que há profissionais a desempenhar tarefas que não deviam ser eles a fazer. Temos enfermeiros licenciados a fazer muitas coisas, como dar banho, comida ou uma injecção ou outros medicamentos aos doentes, que poderiam ser feitas por auxiliares de enfermagem, que existem em muitos países. Dessa forma, ficariam libertos para tarefas que também não deviam ser os médicos a fazer. Se cada um fizesse aquilo que a sua formação lhes permite, não seriam necessários tantos médicos ou enfermeiros.

Como vê a ‘corrida’ à reforma de muitos médicos verificada nos últimos meses?
A reforma dos médicos acontece porque eles estão desencantados com o sistema. Desde a criação do Serviço Nacional de Saúde que devia ter havido uma separação clara entre o público e o privado. Houve sempre uma grande promiscuidade entre os dois sectores. Essa promiscuidade é hoje maior do que nunca. O Governo vem agora tentar que os médicos regressem ao sector público sem querer saber por que é que eles se aposentaram da Função Pública. E isso acontece não só por receio das penalizações na reforma, mas também pela degradação das condições de trabalho.

Concorda com empresarialização dos hospitais públicos?
Durante anos houve hospitais com o dobro ou o triplo dos médicos que deviam ter. Havia muito desperdício. Com os recursos existentes é possível fazer melhor. Talvez a solução passe por trazer para a Função Pública a gestão do privado. Mas é preciso cuidado, porque muitas vezes os gestores só se preocupam com os resultados.

É legítimo um hospital público dar lucro?
É, mas terá de se perceber se a instituição presta os melhores cuidados e se as pessoas estão satisfeitas ou não com o seu hospital. Se presta os melhores cuidados e dá lucro, é louvável.

Como poderá ser resolvido o problema da falta de médicos em Portugal?
A falta de médicos em Portugal é um falso problema. Temos uma média de médicos por habitante semelhante à generalidade dos países da União Europeia e mais de 40 especialidades, algumas das quais terão uma dúzia de doentes espalhados pelo País. O problema foi sempre a má distribuição dos médicos. Os sucessivos governos nunca intervieram a sério na formação dos médicos e permitiram a proliferação de especialidades. Há alguns anos, Lisboa tinha mais cardiologistas do que a Inglaterra.

Por que é que isso acontecia?
As pessoas iam para as especialidades que queriam muito em função das possibilidades que teriam depois de exercer no privado. n

“A preparação para a reforma é fundamental”

Segundo o último relatório da ONU sobre envelhecimento da população, o grupo etário que mais está a aumentar é o das pessoas com mais de 80 anos, que cresce ao ritmo de 3.8% ao ano. O que podemos fazer para envelhecer com qualidade?
Além da genética, que tem um papel muito importante, os grandes pilares do envelhecimento são a alimentação saudável, a actividade física e mental, a saúde e a participação na sociedade. É fundamental também encarar o envelhecimento como uma coisa positiva, percebendo o que ainda pudemos fazer com as capacidades que temos. Quem tiver uma visão pessimista do envelhecimento nunca vai envelhecer bem.

Como evitar que a passagem à reforma seja um trauma?
Esse problema é grave, sobretudo, nas pessoas que só tiveram uma ocupação ao longo da vida. Quem procurou ter interesses diversificados sofre menos. A preparação para a reforma é fundamental. Há empresas que já fazem isso. Alguns anos antes da pessoa atingir a idade da aposentação, promovem acções que pretendem ajudar a tomar consciência dessa fase da vida e a criar novos interesses. É importante que as pessoas continuem integradas, o que não é fácil numa sociedade que marginaliza os idosos. n


Especialidade de geriatria “é tão desejável” como a pediatria


Leonel Antunes, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Ansião
O que podem as instituições que trabalham com a terceira idade fazer para aproximar as famílias dos seus idosos?

São muitas as famílias que, uma vez “arrumado” o seu idoso, limitam ao mínimo o seu acompanhamento na instituição, tantas vezes sob pretextos inaceitáveis. Entre 70 a 80% dos idosos institucionalizados não o estão por vontade própria. Por isso, a atitude dos seus familiares é altamente gravosa para esses idosos, que sentem profundamente esse abandono. A primeira medida para minimizar esta situação seria só admitir nas instituições os idosos que uma cuidada avaliação geriátrica (física, mental, funcional e social) aconselhasse a institucionalizar. Por outro lado, as instituições deveriam vincular as famílias à obrigação de visitarem e acompanharem regularmente os seus familiares internados. Sem isso, poderia--lhes ser recusado o internamento. É também necessário que as instituições assumam uma atitude pedagógica em relação aos familiares, quantas vezes convencidos que o lar é a melhor solução para o seu idoso. Realizem sessões de esclarecimento e de discussão sobre os problemas do envelhecimento e dos idosos e organizem com mais frequência - e não só nos dias de aniversário do lar - convívios dos idosos com as famílias.

José Luís Brandão, médico de família em Leiria
Até que ponto é desejável haver uma especialidade de geriatria?
É tão desejável como haver a especialidade de pediatria. O idoso não sofre de doenças que não atinjam os outros grupos etários. Mas, como a criança, apresenta diminuições físicas, mentais, funcionais e sociais que complicam o diagnóstico e, sobretudo, o tratamento dos seus problemas clínicos. No idoso o cuidar volta a ter uma importância que não tem no jovem nem no adulto.

Fonte: Jornal de Leiria


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