Entroncamento: “Há muita pobreza envergonhada”

No Entroncamento, a crise também se faz sentir. A cidade dos comboios, de confluência de linhas e onde a mobilidade é constante, assiste-se à paragem da crise. Ali, a tão falada crise está a instalar-se e a fazer sentir-se de várias formas. A pobreza começa a ter rostos. Demasiados, dizem as instituições de solidariedade social que recebem cada vez mais pedidos de apoio de pessoas. Pessoas que perderam emprego, que a vida, de uma maneira ou de outra, lhes trocou as voltas e que agora estão à mercê da boa vontade de terceiros. Um cenário que se estende a muitas famílias.

Joaquim, nome fictício, não tem dúvidas em afirmar que a palavra que mais digita no computador é "emprego". É o que pretende encontrar através de pesquisas na internet, um recurso como tantos outros que já tentou para conseguir voltar a trabalhar. Há seis meses que não consegue uma resposta às sucessivas candidaturas que efectua a vagas de emprego. O "sim" que pretende ouvir é constantemente substituído por um "não" ou simplesmente "pelo silêncio" de entidades empregadoras.

Casado, com uma filha, Joaquim diz frontalmente que não perde a esperança. Todos os dias pensa que "é hoje" o dia em que vai conseguir rendimentos para o sustento da família. Em casa, a comida já começa a faltar. Na elaboração da lista de compras, são os alimentos de cariz essencial que assumem relevo e exclusividade. "Não há posses para mais", refere, com tristeza, ciente de que a alimentação da filha é a prioridade e a quem "não pode faltar comida na mesa", já para os pais "é o que se arranjar".

As despesas relacionadas com habitação e automóvel estão certas e por isso o orçamento mensal torna-se um exercício de ginástica mental para que "estique" para o essencial. Nos últimos meses, era apenas a esposa que tinha rendimentos, "em condições precárias", que resultaram em despedimento há dois meses, acrescenta Joaquim.

"Nem sempre houve necessidade de fazer tantas contas e ginásticas. Quando trabalhávamos os dois, era fácil viver, agora estamos os dois desempregados com a casa e o carro para pagar está a ser muito difícil", conta.

Consciente das dificuldades e da incerteza do futuro, o casal faz contas à vida e tem sido a família que tem ajudado a suprimir as "faltas" de dinheiro em casa. "Se não fosse a nossa família nem sei o que seria de nós. Mas eles também não podem ajudar sempre", lamenta Joaquim.


"Não é fácil dizer que se precisa"

Recorrer a uma instituição de solidariedade social para já "está fora de questão". "Não é fácil um pessoa dizer que precisa". "Muitas vezes garantem anonimato, mas numa cidade pequena como o Entroncamento acabamos sempre por ter de dar a cara. Para quem teve uma vida estável, ver-se assim, custa muito", refere o jovem que mesmo assim pondera a hipótese de pedir alguma roupa às instituições do Entroncamento. "Será sempre uma ajuda bem-vinda", refere.


"Os pedidos de ajuda são diários"

O poder local, pela proximidade com os cidadãos, é uma frente de contacto com os casos de carência social e económica. Os presidentes de Junta das duas freguesias do Entroncamento não têm dúvidas em afirmar que a chegada de pedidos de ajuda de munícipes é "diário" e que acontece há algum tempo. Tanto o presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima, Manuel Bilreiro, como a presidente da Junta de S. João Batista, Teresa Martins são unânimes em dizer que "há muita pobreza envergonhada no Entroncamento".

As Juntas de Freguesia, por imposição legal, não dispõem de competências para ajudar nestas situações, mas dado o número de pedidos de ajuda, ambas as Juntas do Entroncamento formalizaram protocolos com instituições de solidariedade do concelho já este ano e passaram a encaminhar as pessoas para essas entidades. A freguesia de S. João Batista encaminha os casos para a Cáritas, desde Fevereiro e a Junta de Nossa Senhora de Fátima para a Conferência de S. Vicente de Paulo, desde o início deste mês.

Na prática, ambas as Juntas dão apoio financeiro aos munícipes até final do ano através das instituições. No caso da freguesia de S. João Batista, é transferida uma verba mensal, inscrita em orçamento, de apoio a alimentos e produtos de maior necessidade. De acordo com Teresa Martins, a Cáritas do Entroncamento entrega uma lista das necessidades a colmatar, da qual dá conhecimento à Junta para serem adquiridos os bens posteriormente financiados pela Junta.

Como frisa a autarca da Junta, a "preocupação social da Junta é de longa data", lembrando as distribuições de cabazes de Natal por quem mais precisa na freguesia que acontece há alguns anos, mas foi no final do ano passado e início deste que mais pessoas passaram a pedir ajuda. "Antes apareciam os que já não viviam em muito boas condições, agora são pessoas inclusivamente que ficaram sem emprego e que a vida pelos mais diversos motivos deu uma grande volta", explica Teresa Martins.

A parceria com a Caritas foi a forma encontrada pela Junta para poder dar um contributo. "Pena temos é de não poder ajudar mais porque não temos leis nem orçamento para isso", lamenta a autarca, que frisa, no entanto, que a Junta está a fazer desconto de 15% no valor dos atestados aos idosos.

Manuel Bilreiro confirma que também "diariamente" chegam à Junta de Nossa Senhora de Fátima pedidos de ajuda. "Estamos sensíveis a colaborar para minimizar os problemas e a forma que encontrámos foi encaminhar os casos para entidades da área, já que nós não o podíamos fazer", refere o autarca.

A Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima, que terá ainda de fazer revisão orçamental que contemple as verbas, começou a parceria este mês com a Conferência de S. Vicente de Paulo, instituição que passará a receber 250 euros mensais, que irá gerir conforme as necessidades.
Os pedidos de auxílio são "mesmo muitos" e vindos de quem muitas vezes não se espera. "Há muita pobreza envergonhada. Já veio uma pessoa de gravata pedir ajuda e que antes costumava ajudar pessoas. A vida dá muitas voltas", lamenta Manuel Bilreiro.

A Junta garante a transferência de verbas para os "Vicentinos" até final do ano, ciente de que talvez seja necessário aumentá-la, prevendo maiores necessidades da população e atendendo à tendência de crescimento da freguesia, embora o orçamento não dê para "esticar" muito mais. "Estipulámos de início aquela verba, pensando que chegará mas também temos que ver que estamos a fazer a obra da nova sede, com 630 metros quadrados de área de construção, para ser inaugurada em Junho", diz o autarca. Manuel Bilreiro acrescenta não saber se se recandidata: "Estando a obra (sede da Junta) pronta, termino o mandato satisfeito". Sublinhe-se que tem 9500 eleitores numa área de pouco mais de 9 mil quilómetros quadrados.


"Damos a cana, pomos o isco e ensinamos a pescar"

Bater à porta de uma instituição de solidariedade social é cada vez mais frequente. Estas respondem com a oferta de alimentos, roupa, objectos de uso doméstico, calçado ou comparticipações em consultas médicas ou medicamentos a quem mais precisa. Na Conferência de S. Vicente de Paulo, no Entroncamento, só ano passado foram atendidas 970 pessoas. Permanentemente, acompanham-se cerca de meia centena de famílias. Na Cáritas, o número é semelhante. A estas instituições pede-se apoio material e também espiritual.

Quem entra no espaço de atendimento da Conferência de S. Vicente de Paulo, no Entroncamento, perde-se a contar as prateleiras de roupa organizada por estações do ano, género, tamanhos e tipo de roupa. "Por uma questão de organização, temos toda a roupa separada para mais fácil poder dar resposta aos pedidos", conta Odete Flores, presidente dos "Vicentinos" do Entroncamento.

O espaço maioritariamente ocupado por roupa, contempla ainda espaço para calçado, artigos de uso doméstico, fruto de ofertas, e alimentos que a associação adquire consoante as necessidades.

Quem bate à porta, "nunca fica sem ajuda", garante Odete Flores. Explica a responsável que todas as pessoas que acorrem à Conferência de S. Vicente de Paulo são ajudadas "na medida do possível". A quem chega ao balcão de recepção é elaborado um processo de identificação (com a entrega de um cartão colorido a assinalar o dia de atendimento), cujos elementos são colocados posteriormente numa base de dados. A resposta às necessidades é dada apenas após uma verificação da verosimilhança do caso, "para evitar que haja pessoas a receber ajuda de várias entidades e que outras fiquem sem resposta".

A Conferência de S. Vicente de Paulo ocupa-se da parte norte do concelho do Entroncamento (freguesia de Nossa Senhora de Fátima) e a Cáritas toma conta dos casos da parte sul (freguesia de S. João Batista). Na prática, as prioridades estão estabelecidas para os habitantes locais, mas ninguém fica sem ser atendido se for de concelhos vizinhos, garantem. "Obviamente que temos de dar prioridade às pessoas da freguesia, mas, por exemplo, uma família de Riachos que nos pediu ajuda por não ter este tipo de ajuda no concelho deles e recebe apoio através da Cáritas", relata a presidente de Junta de S. João Batista.

A estas instituições acorrem "todo o tipo de pessoas". Embora existam "descarados que pedem sem precisar", "principalmente chegam-nos desempregados e idosos com reformas muito baixas que não têm dinheiro para pagar as rendas de casa e os medicamentos". "É impossível uma pessoa de oitenta anos neste país viver com 124 euros e conseguir pagar uma casa, medicamentos e alimentação", lamenta Odete Flores.

Há também quem "tenha vergonha de dar a cara". Nestes casos, os "Vicentinos" "vão ao encontro da pessoa, "com a máxima descrição". "Percebemos que não seja fácil as pessoas reconhecerem que estão na miséria. Antes tinham uma vida boa e agora vêem em dificuldades. Mas recebem-nos muito bem. Há uma grande empatia com os nossos voluntários. Vêem-nos como pessoas amigas", sublinha Maria de Deus, secretária da Conferência de S. Vicente de Paulo no Entroncamento.

"Trabalha-se no duro"

O tipo de apoio é dado em função das necessidades. Tal como na Caritas, na Conferência de S. Vicente de Paulo todo o trabalho é realizado por voluntários, que muitas vezes escasseiam. Os "Vicentinos" são cerca de vinte a trabalhar diariamente, com idades entre os 40 e os 80 anos. A presidente deseja que o número de voluntários aumente. "Há muito trabalho a fazer, seria bom termos mais pessoas. Mas tenho de dizer que todo o trabalho é feito com muita entrega e amor ao próximo", frisa.

A funcionar há 10 anos no Entroncamento, os "Vicentinos" vivem das receitas que anualmente vão angariando, com actividades como as vendas de Natal e de Setembro durante as festas da paróquia ou os peditórios à porta da Igreja da freguesia. Em Maio, próximo a associação está a ponderar organizar uma noite de fados para aumentar a receita. Tudo para que o apoio não falte a quem precisa, "para minimizar a crise que é grande e está a afectar muito as pessoas".

Fonte: Jornal Entrecidades 04/04/2009


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